Viva Santo Antônio, São Pedro e São João.

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O mês de junho é o mês em que há uma valorização, ainda que estereotipada, da cultura caipira. Devido às festas comemorativas dos santos católicos: Santo Antônio, São Pedro e São João, as pessoas se reúnem em volta de fogueiras; cantam e dançam músicas tradicionais; comem paçoca, pipoca, arroz-doce entre outras delícias; participam da quermesse e se divertem no segundo evento brasileiro mais esperado do ano (desnecessário dizer qual é o primeiro, não é mesmo?). Aproveitando o momento, resolvi voltar a uma questão curiosa: quando usamos “santo” e quando usamos “são” para invocar um santo? Se a regra fosse pura e simplesmente respeitada seria muito simples:
“Santo” antes de nomes que começam por vogal ou “h”(Santo André, Santo Amaro, Santo Onofre).
Já os beatificados que têm nomes começados por consoantes serão chamados de “São” (São Paulo, São Caetano, São Bernardo).
O problema são as exceções, cuja mais famosa é a de Santo Tomás de Aquino. Mesmo assim, encontramos o uso de São Tomas de Aquino, também.
Para complicar, as exceções se ampliam para o idioma espanhol, um detalhe que pode confundir também os que falam português. O dicionário espanhol da Real Academia diz que Tomás, Toribio, Tomé e Domingo são exceções que devem ser tratadas com “Santo”. Por isso, para nós que falamos português, a república é de São Tomé e Príncipe, mas seu nome oficial em espanhol é Santo Tomé e Príncipe.
Fique esperto para não se confundir com os mapas turísticos em espanhol.
Melhor mesmo são as mulheres que quando viram santas é só chamar de “santa” e acabou. Simples, não?
Bom, nesse clima junino, trouxe a vocês uma simpática canção de Chico Buarque. Espero que gostem.
Quadrilha
Chico Buarque
Composição: Indisponível
E neste ano, como todo ano, uma vez por ano
Tem quadrilha no arraial
E neste ano, como sempre, salvo chuva e salvo engano
A satisfação é geral
Não me leve a mal
Não me leve a mal

O forró corria manso, sem problema e sem vexame
Quando o chefe da quadrilha decretou changer de dame
A mulher do delegado rendeu o bacharel
O peão laçou a jovem filha do coronel
A Terezinha Crediário deu um passo com o vigário
A beata com o sacristão
Diz que a senhora do prefeito
Merecidamente eleito
Foi com o líder da oposição
Não tem nada não
Não tem nada não

Zé-com-fome deitou olho na patroa do “seu” Lima
Que não faz xodó na moça mas também não sai de cima
Juca largou a sanfona e, abandonando o salão
Foi prevaricar com a dona que vendia quentão
E foi doente com doutora, indigente e protetora
Foi aluna com professor
E o perigoso bandoleiro, Zé Durango “El Justicero”
Fez beicinho pro promotor
Mas, faça o favor!
Mas, faça o favor!

O forró estereofônico estava mesmo um barato
Muita música na praça e muita dança lá no mato
Quem gozou da brincadeiram, muito bom, muito bem
Quem tomou chá de cadeira, só no ano que vem
Pois nesse ano, como todo ano, uma vez por ano
Tem quadrilha no arraial
E nesse ano, como sempre, salvo chuva e salvo engano
A satisfação é geral
Ninguém leva a mal
Ninguém leva a mal

Não diga: eu te amo

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O dia dos namorados está chegando. Época de beijos, carícias, juras de amor eterno e o famoso “Eu te amo”! Você anda dizendo muito essa frase por aí? Cuidado!Gostaria de compartilhar com vocês um texto que escrevi há alguns anos para o dia dos namorados. Esse texto teve grande repercussão, sendo publicado em várias revistas e jornais. Espero que você goste do texto! E não se esqueça, no dia dos namorados “Não diga: eu te amo!”

Não diga: eu te amo
Revolta geral. Eu sei, eu sei. Todo mundo gosta de ouvir e de dizer eu te amo. Que Lindo! Que meigo! Mas de acordo com os rigores da gramática normativa, isso é inadequado. Por quê? Vejamos: Em seu dia-a-dia você diz “tu gostas”? Não. Diz apenas “você gosta”. Pois é, então este é o problema. O “te” de “eu te amo” pertence à família do te, ti, contigo, que você nunca usa.
O que você, eu e quase o Brasil inteiro usa é o você. E sabe qual a família de “você”? Todos os pronomes da terceira pessoa do singular, ou seja, seu, sua, se, si, consigo, o, a, lhe. Aliás, sabe o que é mais problemático? Misturar tu e você, ou seja, segunda e terceira pessoa: “Eu te amo, gatinha, mas seu pai não gosta de mim”. Ou: “Eu te amo, amo tudo o que você faz”.É fácil perceber que tu e você (e outras terceiras pessoas) não ficam bem juntos.Mas o que fazer com os mais de cem milhões de brasileiros que dizem (ou diriam, se tivessem a quem) “eu te amo” no dia 12 de junho?
Bom, a eles a sugestão: falem, gritem “eu te amo”. Não percam essa oportunidade, nunca. Nunca mesmo. Afinal, a gramática que define o que é certo ou errado, no que se refere à linguagem, não deveria interferir em assuntos do coração.
É verdade que ela condensa a atividade intelectual de muitas gerações de estudiosos da linguagem humana. Mas não podemos considerar a gramática tradicional uma Bíblia - sagrada e infalível. A linguagem humana merece ser investigada, porque ela busca compreender a importante relação entre língua e pensamento, que tantas conseqüências traz para o relacionamento entre as pessoas (e o Dia dos Namorados bem o demonstra!).
Sim, a linguagem e seu funcionamento devem ser investigados, mas sem a visão maniqueísta de que tudo se resume a certo e errado; sem a postura crítica, policialesca e anticientífica de que os desvios da norma culta são crimes. Afinal, desde o nascimento da Lingüística moderna, no início do século XX, a noção de erro vem sendo repensada. Ao invés de dizer que uma dada maneira de falar é errada, tem-se preferido dizer que ela é diferente, e que, embora se desvie do que prescreve a Gramática Tradicional, ela revela critérios lógicos e coerentes.
Eu sei que o peso da tradição gramatical poderia nos levar a evitar certos usos e expressões. Mas, vamos lá: Coragem! Diga “Eu te amo”, mesmo sabendo que a Gramática Tradicional prescreveria “Eu amo você”.Diga, então, “eu te amo” por duas boas razões: para subverter uma ordem estabelecida há séculos e também para fazer alguém muitíssimo feliz!