Não se prenda ao que está dito, não se prenda à superficialidade
May 30, 2008 4:20 pm LiteraturaOlá, amigos!
Hoje vim até aqui para dar uma dica de leitura, mas não é uma dica simples e trivial. É uma provocação. Quero provocá-los para uma leitura que não se prenda ao que está dito, que não se prenda à superficialidade. Por isso, vou falar de Marina Colasanti e mais especificamente de seu livro Contos de Amor Rasgados. Aliás, livro utilizado durante um ponto alto do curso e que faz bastante sucesso. Todos me pedem a referência e dizem adorar.
Nascida em Asmara (Eritréia), na África , mora no Brasil desde 1948 e habita os livros didáticos do nosso país. No entanto, não é figura carimbada nas prateleiras dos que gostam de ler. Fato que não entendo, pois seus contos são lindos e de uma literariedade absurda.
Tratam dos assuntos cotidianos, em que a autora parece “jogar o verde” para que nós, leitores, possamos construir o nosso sentido e “colher maduro”. A autora trata sempre de assuntos inusitados e, geralmente, em minicontos que parecem nos colocar sempre em desconforto porque nos propõem mudanças . Não falam aquilo que esperávamos ouvir. Mas nos encantam no final quando sentimos que matamos a charada, quando percebemos que o caos se reorganiza no final, para nosso entendimento e prazer.
E o que é mais interessante nessa autora é que ela parece decifrar o mundo e um personagem através de um único gesto. O gesto passa a ser o tudo. E isso funciona na vida real também, não é característica isolada na literatura.
Um dos meus minicontos favoritos da autora é o que ela nos sugere uma abertura de cabeça. Nos segure, através de uma inusitada situação, que consigamos abrir a nossa cabeça à chave mágica da leitura, da interpretação de texto. Demonstra que o mundo está ao nosso redor – e os livros também – sedentos por uma construção de sentido, mas que sem a leitura, ficam mortos…
Por gostar muito, resolvi compartilhá-lo com vocês. Espero que gostem e que a Marina Colasanti lhes proporcione uma nova maneira de “abrirem a cabeça”!
Boa leitura e um abraço,
Laila
A coceira no ouvido atormentava. Pegou o molho de chaves, enfiou a mais fininha na cavidade. Coçou de leve o pavilhão, depois afundou no orifício encerado. E rodou, virou a pontinha da chave em beatitude, à procura daquele ponto exato em que cessaria a coceira.
Até que, traque, ouviu o leve estalo e, a chave enfim no seu encaixe, percebeu que a cabeça lentamente se abria.
(Marina Colasanti, Contos de Amor Rasgados, Editora Rocco).
May 30th, 2008 at 4:33 pm
Laila!
Também adoro a escritora Marina C.!
Ela nos faz ler mais criticamente!
Também recomendo!