Uma arte, de Elisabeth Bishop

12:40 pm Poema

Uma arte - Elisabeth Bishop

A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

- Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

Esse é um poema que “sei de cor”. A expressão significa saber de memória. Ou ainda, saber pelo coração. E por que será que algumas coisas a gente guarda em lugares tão profundos e outras não? Por que eu não guardo todos os poemas? Por que não sei todos de cor?

O fato é que algumas coisas tocam as pessoas e permanecem tocando-as por tempo indeterminado. Por vários motivos. Algumas tocam a gente em lugares tão profundos, nosso íntimo, que é mais cômodo deixar a “ferida” lá no fundo mesmo… Outras coisas ainda nos tocam por motivos mais evidentes: refletem os momentos e as perdas de nossa vida, exatamente no momento em que elas acontecem.

O poema “ Uma arte”, da Elisabeth Bishop, me toca fundo, tanto que o sei de cor. E me toca porque “perder” é algo com o qual vim me acostumando. A gente perde as coisas a vida inteira. Desde crianças: perdemos o seio da mãe, perdemos o colo, perdemos os dentes… Perdemos! Porém, algumas vezes o “perder” dói mais, as perdas assumem outro significado. Não parece tão simples abrir mão de algo sem o qual não saberíamos viver: perder projetos de vida, perder idéias, perder pessoas… perder.

O estranho é que ainda assim a vida continua. A gente perde e continua lá, por mais machucado que esteja. A gente aprende a viver com a perda, aprende a lidar com ela ao longo da vida. E o “perder” torna-se normal, às vezes, até banal.

Mas parece sempre nostálgico. Talvez o seja mesmo. O bom é que sempre há pessoas dispostas a nos falar sobre esses assuntos, nos mostrando aquilo que, no fundo, a gente já sabe: perder é uma arte!

Grande abraço,

Laila Vanetti.

P.S. Não poderia deixar de me lembrar do poema “das ilusões”, de Mario Quintana, que trata as perdas com alívio. Vai se tornar meu próximo post. Aguardem!

4 Responses

  1. Anna Giulia Says:

    Olá, Laila!

    Que poema bonito! Não conhecia essa autora - perdoe a ignorância, mas é de fato sensacional.
    Parabéns também pela reflexão que você fez sobre as nossas perdas. Tem algumas que doem mais mesmo e a gente não consegue explicar!
    Poste mais poesias.
    Adoro seu blog. Também entro sempre no site da Scritta, estão de parabéns!

    Um beijo

    Anna

  2. alaide xingu Says:

    Laila, este não é um poema, mas filosofia - se filosofia não fosse poesia.
    Obrigada por postá-lo. De outra forma não o teria conhecido e teria perdido - por falar em perder - a vista de uma janela não apenas refrescante aos olhos, mas a todo o nosso quarto.

    Alaíde

  3. Tadeu Says:

    Terá um filme novo projeto uma biografia com sutileza de ficção na biografia de Bishop. E serpa recitado o poema uma arte. O filme aborda o tema PERDA.

    Adorei o poema, abraço

  4. Cyntia Sonetti Valim Says:

    Laila,

    Gostei demais do que você escreveu sobre o poema! Lindo! É isso mesmo!

    Grande abraço.

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