Lobby, ética e argumentação: obrigado por fumar
March 18, 2009 10:24 am UncategorizedSempre acreditei que uma verdadeira obra de arte é aquela que, depois de ser vista, fruída e provada, tem o poder de acompanhar o espectador para fora do museu, do cinema ou do teatro. E se há uma obra que me acompanha já há algum tempo é “Obrigado por Fumar”, filme de 2006 dirigido pelo então estreante Jason Reitman.
O filme conta a história de Nick Naylor, que tem a difícil tarefa de representar os interesses da indústria norte-americana de tabaco, falando em nome dela e até mesmo a personificando ao tentar convencer as pessoas e as instituições de que os fabricantes de cigarros não são vilões. No enredo, ele tem que enfrentar um senador democrata que quer instituir nos maços de cigarro a imagem de uma caveira, a fim de deixar bem claro para todos que o cigarro faz mal à saúde, o que ele faz por meio de um discurso sobre a liberdade de escolha de cada indivíduo.
Mas “Obrigado por Fumar” não é um filme sobre os malefícios do tabaco, como pode parecer à primeira vista. Seu foco é na atividade de Nick, nas estratégias argumentativas utilizadas por ele para alcançar seus objetivos. É um filme, portanto, sobre o poder da palavra.
A ocupação de Nick Naylor é o lobby. O lobismo é uma atividade proibida no Brasil, mas liberada nos Estados Unidos. Talvez pela proibição, em nosso país atribuímos ao lobby uma conotação diferente da que se tem em outros países, e o consideramos um trabalho sujo, baseado em promessas, vantagens e malas cheias de dinheiro. Mas não é sempre assim, nem apenas isso – ou não deveria ser.
Originalmente, o lobista deveria ser alguém que informa – informa para convencer. Ele deve conhecer profundamente seu objeto de defesa, deve conhecer a causa, assim como deve conhecer as causas contrárias. Deve ter muita perseverança para argumentar, argumentar, argumentar e saber usar o poder das palavras em favor da tese que defende. O lobista é uma espécie de advogado institucional, atuando em favor dos objetivos de seus clientes. Se levada adiante de forma honesta, com ética e transparência, a prática do lobby poderia até mesmo ser importante para incentivar uma discussão aprofundada sobre os tópicos em questão, pois sempre haveria dois pontos de vista muito aguçados se contrapondo.
E quanto a Nick, será que podemos dizer que ele foi antiético? Essa é uma das grandes vitórias do roteiro: apesar de ficar muito claro que ele é uma espécie de “advogado do diabo”, suas argumentações são tão bem construídas que, às vezes, acabamos sendo cooptados! E é assim que funciona o filme: opondo ideias que, para nós, são muito claras – o cigarro é um causador de males à saúde, chega a matar 1.200 pessoas por dia – ao poder de sedução de uma fala bem construída.
Quando menos esperamos, ops, percebemos que estávamos indo com Nick, mas nosso senso ético nos resgata. E esse vai-e-vem só faz evidenciar: as palavras, quando utilizadas com presteza, podem ter muito mais poder do que aparentam.